A música é uma das formas mais solenes de expressão artística do ser humano e, sem dúvida, a que mais desperta nossas angústias, paixões e sentimentos mais profundos. Sem a música, a história da humanidade seria, invariavelmente, diferente.É através das notas musicais, acordes e melodias que o ser humano consegue transmitir, de modo intenso, aquilo que não haveria de comunicar senão de tal forma. As ondas que transportam os enredos significantes da música parecem dotadas da capacidade de traduzir, sem subterfúgios, sem enganos, sem "distorções ínsitas aos processos cognitivos comunicativos", experiências da alma, como se os ribombares dos tambores transportassem consigo as batidas dos corações dos compositores, instrumentistas ou quaisquer coisas que os valham. A harmonia característica da música se recoloca nos ambientes pelos quais ela desliza, reconstruindo estados de espírito, recolocando sorrisos nos rostos enfadados, dando ares reflitivos às expressões dos ouvintes. Aliada à letra, à composição poética, é capaz, mesmo com a inclusão de uma dificuldade comunicativa inerente à transmissão de conhecimentos via palavras, tornar mais inteligível, mais interessante, o processo de tomada de experiências de vida de outrem, ajudando-nos a desenvolver a sabedoria de modo mais amplo.
A comunicação de sentimentos através das melodias nos chacoalha, como dito, o estado de espírito, tornando tarefa de extrema complexidade a sua descrição conceitual pura e simplesmente. Tal se dá porque ela transcende as fronteiras da linguagem, transpõe as barreiras culturais, o que permite o estabelecimento de elos entre os mais diferentes povos. É a linguagem universal a serviço da perfeição humana, da globalização, do entendimento síncrono a despeito das diferenças de culturas, ideologias etc., o que a torna um de seus mais importantes traços.
A verdadeira arte musical sobrevive através dos séculos, persistindo mesmo em detrimento das mudanças de governos, de costumes, porque ela toca aquilo que não padece mesmo com o perecimento de vários gerações: nosso coração. Na guerra, na paz, no calor dos trópicos ou no frio europeu; num festejo com os amigos ou numa acalorada discussão; numa rave ou num templo budista, a música se faz sempre presente, seja para nos despertar coragem, alegria, entusiasmo, seja para nos dar sossego, serenidade ou mesmo tristeza.
Se é uma verdade inafastável que nós, humanos, somos movidos pela razão e emoção, indistintamente, resta claro, também, que aquilo que nos transmite sentimentos é, sem sombra de dúvida, vital para a formação plena de nossa identidade enquanto espécie racional e enquanto indivíduos carentes de interação com nossos semelhantes. Se mesmo às plantas a música opera milagres, como a aceleração de crescimento de um clone, sob as mesmas condições e sob um estilo musical diferente de sua cópia, o que dizer de nossa espécie, que é, ao menos aparentemente, mais susceptível sentimentalmente que as demais?!
A música penetra a alma, a música é a alma retransmitida. É inexplicável porque metafísica, é transcendente porque espiritual. A música é o homem-amor, o homem-ódio, a conexão descomplicada do homem com seu espírito. A música é a tradução do homem.
Créditos a Antônio Peticov, autor do quadro acima numa série dedicada à música.

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